sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Mas se pudesse...

Eu poderia chegar em casa, com a cabeça em outro lugar
e sabotar o canal de TV a cabo
Poderia ir pra rodoviária
e ficar observando as chegadas e idas

Eu até poderia decorar o meu quarto
e colocar os bananas de pijamas no teto
Poderia usar um vestido feito de carne
e ser mordida por um vira-lata na rua

Poderia sentar em baixo de uma roseira
e cravar um espinho na cabeça quando levantar
Poderia correr sem alongar
e não conseguir levantar no outro dia

Poderia dormir em um cinema
e assistir a primeira sessão do outro dia de graça
Poderia fazer um abaixo assinado
e pedir pra todos japoneses pularem juntos

Poderia tingir os pelos do corpo de azul
e escolher apelidos entre avatares e smurfs
Poderia ler 365 livros por ano
e não ter nenhum amigo
Poderia até mergulhar em chocolate derretido
e me lamber igual gato

Mas nunca poderia convidar um dinossauro
pra assistir Big Brother.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Procurando o oposto

Um dia um casal muito diferente se conheceu
passou a tarde na praça conversando
e percebendo que não tinha nada em comum
e por isso, começaram a namorar.
Certa vez ela dormiu na casa dele
e quando foi tomar banho
percebeu que ele usava o mesmo shampoo que ela
No outro dia ela trocou de número
e nunca mais quis ver ele.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A rotina de Zé-poe-luva

Ele passava toda quarta-feira naquela mesma rua
com o uniforme combinando com o tom de pele
chegava em casa e antes mesmo de tirar as meias
entrava no chuveiro desesperado.

Todo dia, depois do almoço e do cochilo no sofá,
ligava a TV em um canal de documentários,
telefonava pra mãe, dava comida pro cachorro
e saía pra comprar um crepe sabor romeu e julieta.

Ao anoitecer, Zé deitava sobre a grama do vizinho,
pegava seu localizador de estrelas
fingia conhecer todos pontinhos brilhantes no céu.
Era hora de voltar pra casa, fazer cafuné no cachorro e dormir.

Zé-poe-luva era gari, ou lixeiro como dizem
suas mãos eram da textura do casco de uma tartaruga
porque esquecia de usar luvas
e só lembrava quando alguém lhe chamava pelo apelido.